terça-feira, 28 de junho de 2011

ORTODOXIA - G.K CHESTERTON (NOTAS DE LEITURA)


Judas em sua carta convoca os seus leitores “a batalhar pela fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos”(v.3). Na historia da Igreja cristã coube aos apologistas e aos polemistas tal incumbência, visto que a igreja sempre esteve rodeada de inimigos. Os inimigos eram tanto externos como internos. Os judaísmo, o Estado, as filosofias pagãs eram inimigos externos que buscavam de todas as formas barrar o avanço da igreja questionando sua mensagem. Se não bastasse os ataques que vinham de fora, dentro da igreja levantavam-se questões que poderiam de certa forma minar o caminho da igreja, corrompendo assim a sua fé. Os apologetas portanto eram defensores da fé contra os ataques de fora, e os polemistas tentavam corrigir os equívocos internos da igreja. Chesterton foi um exemplo de apologeta. Ele conseguiu expor de forma concisa o pensamento cristão, defendendo a ortodoxia não como uma coisa “pesada e enfadonha” mas como algo estimulante. 
Ao terminar a leitura desta obra cheguei a seguinte conclusão - Precisamos de Apologetas hoje! Veja bem. Temos um grande numero de pessoas que se auto-proclamaram Apologetas, defensores da sã doutrina, mas que para mim não passam de escarnecedores, gente patética que acaba complicando ainda mais a caminhada da igreja nos nossos dias. Chesterton era firme nas suas posições (afinal ele era um apologeta) mas ao mesmo tempo ele era respeitoso, cortes com os seus “inimigos”. Pare um pouco para ler o que anda sendo publicado nos blogs apologéticos da vida (um exemplo posso te dar - genizah, para mim a coisa mais patetice que existe). Veja a falta de respeito no lidar com aquele que pensa diferente. Isso não é ser apologeta, isso é ser fariseu.
Que os apologetas de araque dos nossos dias parem um pouco o desserviço que estão prestando a igreja e aprendam um pouco o que é ser realmente um defensor da ortodoxia com o nosso querido Chesterton. 
Com vocês as notas de leitura. 
  • A chatice, todavia, me livra da acusação que mais lamento, a acusação de ser superficial. 
  • Eu sou o homem que com a máxima ousadia descobriu o que ja fora descoberto antes.
  • Tentei fundar uma heresia só minha; e quando lhe dei o ultimo acabamento descobri que era a ortodoxia. 
  • Quando a palavra ortodoxia é usada aqui, ela significa o Credo dos Apóstolos, como era entendido por todos os que se chamavam cristãos ate pouco tempo atras e a conduta histórica daqueles que adoptavam esse credo. 
  • Aceitar tudo é um exercício, entender tudo é uma tensão. O poeta apenas deseja a exaltação e a expansão, um mundo em que ele possa se expandir. O peta apenas pede para por a cabeça nos céus. O lógico é que procura por os céus dentro de sua cabeça. 
  • O louco é um homem que perdeu tudo excepto a razão. 
  • Enquanto se tem um mistério se tem saúde, quando se destrói o mistério se cria a morbidez. 
  • Hoje em dia a parte humana que o homem afirma é exactamente a parte que não deveria afirmar. A parte que ele duvida é exactamente a parte de que não deveria duvidar - a razão divina. 
  • A evolução ou é uma descrição cientifica inocente de como certas coisas terrenas aconteceram, ou então, se for algo mais do que isso, é um ataque contra o próprio pensamento. Se ha uma coisa que a evolução destrói, essa coisa não é a religião, mas sim o racionalismo. 
  • Está na hora de abandonar a busca de perguntas e empreender a busca de respostas. 
  • Portanto, o homem moderno em estado de revolta tornou-se praticamente inutil para qualquer proposito da revolta. Rebelando-se contra tudo, perdeu o direito de rebelar-se contra qualquer coisa especifica. 
  • ...o coração deve estar preso a coisa certa, a partir do momento em que temos o coração preso temos liberdade para as mãos. 
  • É o mal extremo e absoluto, a recusa de interessar-se pela existência, a recusa de fazer um juramento de lealdade a vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens, no que lhe di z respeito, ele elimina o mundo. 
  • Em outras palavras, o mártir é nobre, exactamente porque ele confessa esse supremo laço com a vida, coloca o coração fora de si mesmo, morre para que alguma coisa viva. O suicida é ignóbil porque não tem esse vinculo com a existência, ele é meramente um destruidor. Espiritualmente ele destrói o universo. E depois me lembrei da estaca e da encruzilhada, e o estranho fato de que o cristianismo mostrara esse rigor incomum para com o suicida. Pois o cristianismo mostrara um ardente incentivo ao martírio. 
  • Portanto, quando se trata de uma resposta histórica, o ponto básico não é saber se essa resposta foi dada no nosso tempo, mas se foi dada em resposta a nossa pergunta. E quanto mais eu pensava sobre quando e como cristianismo surgira no mundo, tanto mais eu sentia que, de fato, viera para responder a essa pergunta. 
  • Dentre todas as religiões horríveis, a mais horrível é a adoração do deus interior. 
  • O cristianismo veio ao mundo acima de tudo para afirmar com veemência que o homem não só não devia olhar para dentro, mas devia olhar para fora, contemplar com assombro e entusiasmo uma companhia divina e  um capitão divino. O único prazer de ser cristão era que o homem não ficava  sozinho com a luz interior, mas definitivamente reconhecia uma luz exterior, bela como o sol, clara como a lua, formidável como um exercito com bandeiras. 
  • Deus havia escrito não exactamente um poema, mas antes uma peca, uma peça que planejara a perfeição, mas que tinha necessariamente legado a actores e directores humanos, que a partir daquele tempo a transformaram numa grande confusão.
  • Eu acreditava nessa doutrina da fraternidade de todos os homens na posse do senso moral, e ainda acredito nisso - junto com outras coisas. 
  • A doutrina crista detectou as esquisitices da vida. Ela não apenas descobriu a lei, mas previu a excepções. 
  • Essa é a emocionante aventura da Ortodoxia. As pessoas adquiriram o tolo costume de falar de ortodoxia como algo pesado, enfadonho e seguro. Nunca houve nada tão perigoso ou tão estimulante como a ortodoxia. Ela foi a sensatez, e ser sensato é mais dramático que ser louco. Ela foi o equilíbrio de um homem por trás de cavalos em louca disparada, parecendo abaixar-se para este lado, depois para aquele, mas em cada atitude mantendo a graça de uma escultura e a precisão da aritmética. 
  • A igreja ortodoxa nunca tomou a rota fácil ou aceitou as convenções, a igreja ortodoxa nunca foi respeitável. Teria sido mais fácil ter aceitado o poder terreno dos arianos. Teria sido mais fácil, durante o calvinista século XVII, cair no abismo infinito da predestinação. É fácil ser louco, é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça,  difícil é não perder a própria cabeça. 
  • É sempre simples cair, ha um numero infinito de ângulos para levar alguém a queda, e apenas um para mante-lo de pé. Cair em qualquer um dos modismos, do agnosticismo a ciência crista, teria de fato sido obvio e sem graça. Mas evita-los a todos tem sido uma estonteante aventura e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia mais segue de pé. 
  • Nietzsche sempre se evadia de uma questão usando uma metáfora física, como um jovial poeta menor. Ele dizia “alem do bem e do mal” porque não tinha a coragem de dizer “melhor que o bem e o mal” ou “pior que o bem e o mal”. 
  • No mundo superior o inferno uma vez se rebelou contra o céu. Mas neste mundo o céu esta se rebelando contra o inferno. 
  • A essência de todo panteísmo, evolucionismo e religião cósmica moderna esta realmente nesta proposição: que a natureza é a nossa mãe. Infelizmente, se voce considerar a natureza como mãe, vai descobrir que ela é madrasta. O ponto principal do cristianismo era este: que a natureza não é a nossa mãe: a natureza é nossa irmã. Podemos sentir orgulho de sua beleza, uma vez que temos o mesmo pai, mas ela não tem autoridade sobre nós, temos de admira-la, não de imita-la. 
  • O homem precisa ter a medida exacta e suficiente de fé em si mesmo para ter aventuras, e ter a medida exacta e suficiente de duvida de si mesmo para desfruta-las. 
  • O cristianismo pronunciou-se de novo e disse: Eu sempre afirmei que os homens eram naturalmente reincidentes no erro, que a virtude humana por sua própria natureza tendia a enferrujar e corromper-se, eu sempre afirmei que os seres humanos como tais cometem erros , especialmente os seres humanos felizes, especialmente os seres prósperos e orgulhosos. Essa revolução eterna, essa suspeita sustentada ao longo dos séculos, voce a chama de doutrina do progresso. Se voce fosse um filosofo, voce a chamaria, como eu, de doutrina do pecado original. Voce pode chama-la de avanço cósmico tanto quanto voce quiser, eu a chamo o que ela é - A Queda.
  • Pois desde o inicio ela manteve que o perigo não estava no meio em que vive o homem, mas sim no homem. 
  • O cristianismo mesmo quando diluído, é forte o suficiente para reduzir toda a sociedade moderna a trapos. 
  • Um milagre significa apenas a liberdade de Deus. 
  • Em vez de examinar livros e quadros sobre o novo testamento, examinei o próprio novo testamento. Ali descobri um relato que absolutamente não mostrava uma pessoa de cabeleira partida ao meio ou de mãos entrelaçadas um gesto de suplica, mas mostrava um ser extraordinário com lábios de trovão e atos terrivelmente decididos, que derrubava mesas, expulsava demónios, passava com o bravio sigilo do vento do isolamento, da montanha para uma espécie de medonha demagogia, um ser que muitas vezes agia como um deus irado - e sempre como um deus. 

sexta-feira, 17 de junho de 2011

U2 - Please

PR. RICARDO E A TEOLOGIA DO FAZ DE CONTA

“Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” I COR 15.19
 A declaração bombástica do Pr. Ricardo Gondin acerca da volta de Cristo está na ordem do dia. A policia da sagrada ortodoxia agradece, visto que agora eles tem alguém para crucificar ou no mínimo queimar em praça publica. 
Antes de mais nada preciso afirmar categoricamente - Não concordo com a tese do Pr. Ricardo. A idéia de um horizonte utópico para mim nada mais é do que a “teologia do faz de conta”, mais uma invencionice do liberalismo teológico que é recebido por muitos como a ultima coca-cola no deserto. 
Ja tive a oportunidade de ler alguns textos de Moltmann e acredito que vale a pena parar para ler algumas das propostas apresentadas por ele na sua cristologia, no entanto quando falo de parar para prestar atenção ao que ele diz, não estou falando necessariamente de abraçar tal teologia. O exercício teológico é necessário e saudável mas sem espirito critico pode ser absolutamente danoso e este é o caso do nosso querido Pr. Ricardo Gondin. 
Sinceramente confesso que não consigo entender o posicionamento deste querido pastor. Veja, não são questões corriqueiras que estão sendo discutidas (Predestinação, Livre-arbítrio, Calvinismo, arminianismo, Batismo como segunda benção e outras questões que fazem a diversão dos estudantes de teologia). Na verdade, os fundamentos da fé cristã estão sendo colocados em xeque: Soberania de Deus e agora a volta de Jesus Cristo em Gloria. Dizer que Deus não é soberano ja foi um chute na canela e agora temos que aguentar este murro no estômago - A volta de Cristo apenas como uma utopia. 
Percebo nisto tudo que o querido pastor Ricardo enveredou de vez no caminho do pos-modernismo que propõe uma absoluta desconstrução de conceitos e valores. A questão que levanto é a seguinte - o que será construído no lugar do prédio que foi derrubado? A resposta? Nada! O resultado disto? Desespero. A doutrina da soberania nos traz paz, descanso, segurança - “E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam;E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?” Lucas 6.28-30. Ai vem o teísmo aberto e diz - “Deus não é soberano, ele está presente na historia”. E agora? Tenho que me virar, porque Deus não ja pode intervir na minha historia _ Estou perdido!
A doutrina da segunda vinda de Cristo alimenta a nossa esperança, na ceia proclamamos - “Ate que ele venha”. Ai vem os defensores da teologia da esperança proclamando uma “esperança” pra lá de estranha - a volta utópica, ou seja a volta não vai acontecer, pois se ela acontecer deixará de ser utópica, ou seja, “faz de conta que Ele vai voltar”. O que fica então? Nada. Novamente o desespero e nas palavras de Paulo a mais absoluta miserabilidade, uma vez que passamos a esperar em Cristo somente nesta existência. 
Afinal, que boa nova é esta que traz desespero, duvida e insegurança? O evangelho da graça traz paz, alivio, segurança, esperança e certezas. Com certeza este não é mais o evangelho pregado pelo Pr. Ricardo.
Agora, um recado para os apologistas da fé. Não contem comigo para nada. Não vou ajudar a queimar ninguém na fogueira e nem tampouco vou ajudar nessa nova caça as bruxas. Não comungo com as posições do querido Pr. Gondin, no entanto, continuo respeitando a pessoa dele como homem de Deus que abençoou muito esta nação. E para dizer de forma mais clara - Não quero me aliar aos doutores da lei versão 2.0, porque percebo a falta de ternura, a ausência da graça em suas falas e em seus escritos. Deus me livre de me tornar uma coisa dessas. 
Deus me livre da insensatez do Pr. Ricardo
Deus me livre da hipocrisia e da dureza dos apologéticos. 
Beijo no coração.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

COMEÇANDO A LER

"Fora a Biblia, se eu tivesse de escolher um único livro em situação semelhante,
 é bem provável que fosse ortodoxia" 
Philip Yancey

MOMENTO NARCISO!!! RSRSRSRS

UM PASTOR SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS - EUGENNE PETERSON (NOTAS DE LEITURA)

Ler Eugenne Peterson é sempre um prazer. Seus livros são na verdade uma boa conversa com pastores que buscam ir alem da mediocridade marcante do nossos dias. Alguns ministros de hoje agem como vendedores que buscam novas técnicas para repassar um produto, nada mais do que isso.  
Quando voce senta para ler Richard Baxter, Charles Spurgeon, Martins Lloyd-Jones e Eugene Peterson, logo se percebe a crise do ministério pastoral nos nossos dias. Uma nova técnica aqui, uma estratégia mirabolante acolá, uma conferencia apresentando a ultima descoberta do mundo pastoral bem ali. Tudo isso banaliza o chamado pastoral. 
Oração, Leitura da Palavra e Orientação espiritual são caminhos de integridade para um ministério segundo o coração de Deus. Para aquele que vive buscando técnicas isso pode parecer ultrapassado e  antigo. Lembro-me das palavras de Jeremias 6.16 - “Perguntai pelas veredas antigas.” Peterson me ajuda a fazer estas perguntas. 
Deixo voce com as notas de leitura -
  • Nenhuma das três actividades citadas é pública, o que significa que ninguém pode ter certeza de que estamos, realmente, ocupando-nos com elas. As pessoas ouvem-nos orar no culto, pregar e ensinar a Bíblia e percebem quando prestamos atenção ao que nos dizem, mas não têm como saber se estamos envolvidos com Deus enquanto fazemos tudo isso. Não é necessário passar muitos anos no ministério para perceber que podemos exercê-lo de forma satisfatória, pensando em Deus apenas ao realizar atos cerimoniais. Já que é possível negligenciar os atos de atenção ou comunhão com Deus sem que ninguém perceba e sendo necessária grande dedicação para executá-los, é fácil, e comum, dar-lhes pouca importância.
  • Não conheço outra profissão em que seja tão fácil fingir como a nossa. Existem comportamentos que podemos adotar para sermos considerados, sem nenhum questionamento, conhecedores de mistérios: ter um porte reverente, cultivar uma voz empostada, introduzir em nossas conversas e palestras palavras eruditas em quantidade suficiente apenas para convencer os outros de que nosso treino mental está um pouco acima do que o da congregação. A maioria das pessoas, ou pelo menos aquelas com quem convivemos mais estreitamente, sabe que, na realidade, estamos cercados por enormes mistérios, como a vida e a morte, o bem e o mal, o sofrimento e a alegria, graça, misericórdia, perdão. Podemos insinuar familiaridade com esses assuntos profundos com gestos, suspiros cheios de simpatia ou toques repletos de compaixão. Mesmo quando, no meio de ataques de humildade ou honestidade, declaramos que não somos santos, ninguém acredita, porque todos precisam de ter certeza de que alguém tem contato com os assuntos mais elevados.
  • É possível fingir ser pastor sem sê-lo.
  • Se nos satisfizermos em simplesmente agradar à congregação, ser pastor será um dos trabalhos mais fáceis que existem na face da Terra. A carga horária é boa, o salário adequado, o status bem elevado. Então, por que não achamos fácil e nem estamos satisfeitos?
  • E, para os pastores, a integridade tem a ver com Deus (e não com aliviar a ansiedade, confortar e nem com dirigir uma empresa religiosa).
  • Existe dificuldade em se definir bem a linha divisória. Como não perder a vocação pastoral vivendo em uma comunidade que me contrata para realizar tarefas religiosas? Como continuar tendo integridade profissional no meio de um povo que tem grande experiência em comparar produtos mas que não se cansa de exigir que tenhamos integridade pastoral?
  • Mas a palavra devoção faz parte do vocabulário dos atletas e significa treinar para alcançar a excelência.
  • Sem uma "devoção" adequada, nem mesmo os melhores talentos e as melhores intenções poderão evitar o enfraquecimento, que levará a uma vida, em sua maior parte, de representação.
  • A implicação de tudo isso no trabalho pastoral é evidente: ele começa com a oração. Tudo aquilo que tem nossa participação - o que for criativo, poderoso, bíblico - tem origem na oração. Os pastores que imitam a pregação e as ações morais dos profetas sem, ao mesmo tempo, imitar sua vida profunda de oração e louvor, que é tão evidente nos Salmos, são um estorvo para a fé, um empecilho para o crescimento da Igreja.
  • Enquanto que os gregos tinham uma história para cada ocasião, os hebreus tinham uma oração. Para os pastores, as histórias gregas são úteis, mas as orações hebréias são essenciais. 
  • Vá devagar com a oração, porque, na maior parte das vezes, ela não traz aquilo a que aspiramos, mas o que Deus quer, que pode ser bem diferente do que entendemos como sendo nosso melhor interesse.
  • Os pastores são continuamente submetidos a uma indignidade, quando um grupo se reúne, para uma reunião ou refeição, e alguém lhes pede: "Pastor, o senhor podia fazer uma oraçãozinha para começar?" Seria maravilhoso responder, gritando, como imaginou William McNamara: "Não posso! Não existem oraçõezinhas! A oração penetra na cova dos leões, leva-nos até à presença da santidade, lugar de onde não sabemos se voltaremos vivos ou equilibrados, já que 'horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo' 
  • Os pastores não são os culpados por esse estado de coisas, mas se tornam a partir do momento em que o perpetuam, com sua aquiescência. Ao percebermos a extensão de nossa responsabilidade, devemos fazer algo frente à situação.
  • A palavra de Deus é o meio criativo através do qual todas as coisas vêm à existência.
  • Respostas decoradas não são adequadas à estonteante criatividade da interpelação que Deus nos faz através de sua palavra.
  • O segundo tipo de demandas inclui responder, em oração reverente, à chamada que Deus faz para que Lhe demos atenção, para ouvi-Lo, levá-Lo a sério dentro das circunstâncias reais do que vivo no dia de hoje, no lugar onde moro.
  • A substituição, quase geral, dos termos entre os pastores é mais um sinal de uma identidade vocacional abandonada (Uma troca de nome que se relaciona com esta é a de "gabinete pastoral" por "escritório",
  • Sabá: Tempo e espaço em ordem, para nos distanciarmos da agitação de nossas atividades, a fim de podermos ver o que Deus fez e está fazendo. Se, regularmente, não deixarmos nosso trabalho por um dia por semana, estaremo-nos levando a sério demais. O suor moral que brota de nossas sobrancelhas nos cega para a ação fundamental de Deus dentro de nós e à nossa volta.
  • A maioria de nós é agostiniana35 nos púlpitos. Pregamos a soberania de nosso Senhor, a primazia da graça, a glória de Deus: "Porque pela graça sois salvos... não de obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2:8,9). Mas, no minuto em que deixamos o púlpito, passamos a ser seguidores de Pelágio.36 Em reuniões, sessões de planejamento, tentativas obsessivas de atender às expectativas das pessoas, ansiedade de agradar e pressa de cobrir todas as bases, praticamos uma teologia que coloca nossa boa vontade como fundamento da vida e estimula o esforço moral como sendo o elemento básico para se agradar a Deus.
  • "O homem só se diverte quando é homem na completa acepção da palavra, e só no momento em que se diverte ele é completamente homem."
  • Os pastores precisam de criar nesta terra parques de diversão e de oração.
  • Ler a Bíblia não é o mesmo que ouvir Deus. Um não está necessariamente ligado ao outro, mas, muitas vezes, presume-se que sejam a mesma coisa. Os pastores, que passam mais tempo lendo as Escrituras do que a maioria dos cristãos (não em face da devoção, mas do seu trabalho), adotam essa opinião sem justificativa com freqüência alarmante.
  • Mas é exatamente esse ouvir cheio de alegria e paixão que diminui, chegando, mesmo, a desaparecer, no decorrer do exercício do pastorado. 
  • Não há área em nossa vida que não seja afetada, de uma forma ou outra, pelo consumismo.
  • Segue-se disso ser um erro fatal a prática acadêmica amplamente disseminada de tratar as Escrituras basicamente, se não exclusivamente, como fenômeno impresso, livro didático escrito para nos fornecer informações sobre Deus, doutrina, moral ou história religiosa. Lamentavelmente, os pastores adotaram essa prática. A Bíblia, definitivamente, não é um livro didático. E a Igreja em adoração nunca levou muito a sério essa noção. Percebe-se na Bíblia algo muito maior e mais ativo: uma matriz verbal, na qual o comportamento de fé de uma comunidade de adoração é moldado e renovado.
  • A tarefa da Igreja (por cuja execução os pastores têm grande responsabilidade) é evitar esse mal-entendido: evitar que a revelação, que sempre envolve histórias e reações pessoais, seja tratada como informação, que comumente envolve fatos impessoais e idéias abstratas.
  • A religião como distração é sempre mais atraente, mas também é menos verdadeira.
  • A maioria dos enganos vem, não de definições erradas, mas de contextos esquecidos.
  • "As histórias das Escrituras, ao contrário das de Homero, não buscam nosso favor, não nos lisonjeiam, visando a nos agradar e encantar: elas almejam submeter-nos e, se nos recusarmos à submissão, seremos rebeldes.
  • Não importa que o povo desta era não goste dessas características em seus textos religiosos: os pastores não estão a serviço desta era.
  • Por toda parte, pastores têm transformados seus gabinetes em "destila-rias" ilegais, onde extraem idéias e moralidade da narrativa fértil das Escrituras. 
  • A oração é parte integrante do estudo das Escrituras, porque antecipa a caminhada do leitor, carregado pelo Espírito, da página escrita ao próprio Deus.
  • A cultura nos condiciona a nos aproximarmos das pessoas e situações como jornalistas: ver o grande, explorar as crises, editar e resumir o comum, entrevistar o fascinante. As Escrituras, porém, e as melhores tradições pastorais nos treinam em um sentido diferente: notar o pequeno, persistir no comum, apreciar o obscuro.
  • A orientação espiritual é a tarefa de ajudar uma pessoa a levar a sério o que é deixado de lado pela mente tomada pela publicidade e farta de crises. É, ainda, receber o "material de vida misturado e aleatório" (de novo, palavras de Auerbach) e usá-lo como material para a mais alta santidade.
  • cada alma é única: não se pode simplesmente aplicar alguma sabedoria, sem discernir as particularidades desta vida, desta situação.
  • Acredito que muitos pastores se dedicariam muito mais à orientação espiritual, com mais consistência e habilidade, se percebessem quão mais importante ela é do que nossos professores falaram, e a importância que teve no ministério pastoral nos séculos anteriores.
  • . Ser orientador espiritual significa estar pronto a abrir espaço e conseguir tempo para olhar para esses elementos de nossa vida, que não são, de forma alguma, periféricos, mas, sim, centrais: sinais inequívocos de transcendência. Mencionando, atendendo e conversando, ensinamos nossos amigos a "lerem o Espírito" e não se deterem aos jornais.
  • Ser um orientador espiritual significa reparar no que é familiar, dar nome ao que é individual. É necessário ser instruído nas grandes verdades de pecado, graça, salvação, expiação e julgamento, mas isso não é suficiente.
  • Na orientação espiritual nos dedicamos mais a descobrir tentações particulares e graças reais do que a aplicar verdades.
  • Uma pessoa necessitada e em crescimento está vulnerável, e aceita, prontamente, os conselhos oferecidos com sinceridade. Mas a ajuda que poderia ser adequada a outra pessoa, ou até mesmo para esta pessoa, só que em outro momento, pode estar errada para essa pessoa, nesse momento. Por isso, a necessidade da congregação, de receber orientação espiritual pessoalmente, não pode ser deixada à responsabilidade de livros, fitas cassete ou vídeos. Esta é a verdadeira função dos pastores.
  • Se estamos, porém, o tempo todo exercendo autoridade, quando teremos a oportunidade de praticar a obediência?
  • Os maiores erros na vida espiritual não são cometidos por noviços, mas por conhecedores. 
  • Reduzindo uma pessoa a material para sermões, seremos agentes da alienação.
  • Assim, nossa tarefa principal é sermos peregrinos. Nosso melhor preparo para a orientação espiritual é a vida honesta. A oração e a capacidade crescente de adoração e alegria dão autenticidade à existência pastoral.
  • Precisam de um amigo que dará atenção ao que elas são, não querem um gerenciador de projetos que prescreva mais tarefas.
  • Baxter diz que um pastor não pode "agir de qualquer modo quanto" ao seu trabalho.
  • Faz vários anos que venho prestando atenção especial aos pastores, no momento em que falam das pessoas que batizam e a quem entregam a palavra, o corpo e o sangue de Cristo. Que eles realmente pensam sobre de suas "ovelhas"? É muito raro ouvir espanto ou maravilha quando falam, muito difícil detectar qualquer aplauso para as glórias que ninguém nota, para a graça que ninguém percebeu.
  • Todo encontro com outra pessoa é um privilégio. Nas conversas pastorais tenho oportunidades que muitos nunca têm com tanta facilidade ou tão freqüentemente: oportunidade de explorar a glória oculta, a bênção ignorada, a graça esquecida. É melhor não perder isso.
  • É difícil manter a consciência de minha ignorância. Os pastores fazem tantas provas, ouvem tantas palestras, lêem muitos livros, e têm tanta experiência com a matéria-prima da verdade - morte, luto, sofrimento, celebração, culpa, amor - que assumem com facilidade a postura de onisciência. Mas o que não sabemos é muito maior do que o que conhecemos.
  • Li e estudei as Escrituras durante anos e anseio compartilhar o que aprendi. Fui ensinado e treinado em Teologia durante anos e desejo passar meu conhecimento adiante. Sendo estimulado por uma pergunta ou recebendo o sinal de uma pesquisa, forneço respostas e comentários. Quero passar o conteúdo de minha mente para o vazio da outra mente. Mas, e se não forem as cabeças as envolvidas aqui, mas algo mais parecido com corações, vidas"? Neste caso, o terreno desconhecido é muito maior do que o conhecido. Von Hugel disse: 'É característica de uma mente ignorante ser mais dogmática do que o assunto requer." O melhor é ficar quieto um pouco, ouvir e olhar. Há muito mais aqui do que o olho pode ver, muito que não foi dito. Que é?
  • É mais fácil falar sobre idéias, pessoas ou projetos. Para a situação imediata, habitualmente traz mais satisfação. Mas se a pessoa realmente deseja relacionar-se com Deus, esses assuntos só atrapalharão a busca ou atrasarão o encontro. Já me coloquei, erroneamente, como o principal elemento da conversação, quando o que o outro procurava era conversar com Deus. Se eu dominar o diálogo - ignorando tanto a palavra de Deus, sua presença e misericórdia, quanto confinando-o a uma mera posição cerimonial - estarei atrapalhando o caminho.
  • Mas deve haver uma predisposição e uma prontidão para orar. A orientação espiritual, então, é conduzida com a certeza de que acontece na presença ativa de Deus, e de que nossa conversa, portanto, é condicionada pelo que Ele fala e ouve, pela Sua presença.
  • Clemente de Alexandria chamou a oração de "manter companheirismo com Deus". "Manter companheirismo" envolve gestos e silêncio, meditação relaxada e fala concentrada.
  • Com muito mais freqüência do que acreditamos, a razão secreta, muitas vezes inconsciente, que as pessoas têm ao procurar conversar com o pastor é o desejo de manter um companheirismo com Deus. Se tiverem a desventura de ir a um pastor que não é ativo no companheirismo, serão decepcionadas, como George Fox, cujos pastores não deram qualquer orientação para a oração e nem pareceram ser pessoas que oravam.